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Quando a arte ainda não se chamava arte

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Entrei em um curso de História da Arte como um desafio pessoal. Sabia que seria um assunto difícil. Nas primeiras aulas descobri algo curioso: não existia arte como pensamos hoje. Não havia artistas nem obras feitas para serem admiradas. As pessoas criavam imagens e objetos para aquele tempo.  Só muito mais tarde tudo isso passou a se chamar arte. O curso está sendo baseado no livro A História da Arte, de E.H.Gombrich, muito usado nas universidades. Começamos pelo período da pré-história e das primeiras civilizações, que acreditavam na vida após a morte. As obras tinham símbolos e significados daquela época e eram feitas para permanecer para sempre. Usavam materiais preciosos como ouro, prata e bronze, que ajudavam a preservar as obras e davam mais valor aos objetos.  Durante a aula, conhecemos algumas obras interessantes e muito bonitas, como uma adaga — uma espécie  de punhal, decorada com cenas de caça e rituais, e instrumentos musicais ornados com cabeça de leão. Ess...

Carta de uma Desconhecida — Stefan Zweig

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Fazia tempo que eu não lia um livro tão curtinho de que gostasse tanto. Carta de uma Desconhecida, publicado em 1922, me conquistou logo no começo. É uma leitura simples, fluida, linear. Daquelas que você lê em poucas horas e termina diferente de como começou. Uma carta. Um amor silencioso. Uma vida inteira contada com poucas palavras. O autor, Stefan Zweig, foi um dos grandes escritores europeus das primeiras décadas do século XX. Judeu austríaco, teve que sair da Europa por causa do nazismo e acabou vivendo no Brasil, em Petrópolis.  Além de suas novelas e contos, Zweig escreveu biografias muito conhecidas. Entre elas as biografias de Dostoiévski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstói e Stendhal.  Mais tarde publicou também biografias de Maria Antonieta, Fouché, Rilke e Romain Rolland. Foi também o autor da famosa expressão " Brasil, país do futuro" , título de um livro que escreveu depois de se encantar com o nosso país.  Seus livros são curtos, psicológicos e emocionais...

Apolinária e o que a leitura desperta

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O livro Apolinária, de Bianca Santana, não foi unânime na nossa discussão no Clube de Leitura da Livraria da Travessa. Nem todos gostaram da leitura da mesma forma. Eu fiquei no meio: gostei mas não posso dizer que amei. Ao longo da conversa, surgiram experiências pessoais. Falou-se do preconceito e da pressão para estar sempre "bem arrumada", impecável, como se a mulher negra precisasse provar o tempo todo que está à altura dos outros. Também vieram à tona o abandono, a separação e a sobrecarga que tantas mulheres enfrentam. Depois do encontro, escutei uma entrevista da autora, Bianca Santana. Ela é brasileira, nasceu em 1980, é jornalista e escritora. Já era conhecida por Quando me descobri negra, obra de crônicas que recebeu o Prêmio Jabuti. É seu primeiro romance. Não é autobiografia, como ela faz questão de dizer, mas parte da história da própria avó, uma mulher negra que saiu da Bahia e veio trabalhar em São Paulo como empregada doméstica. Trata de temas antigos e ainda...

Frankenstein: a humanidade pode ser aprendida

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Escolhi assistir a Frankenstein numa-sexta feira à noite, esperando um filme mais forte, mais provocativo. Mas encontrei algo diferente. Em vez de choque, encontrei amor, delicadeza e escuta. Não é um filme para assistir uma única vez. Ele pede retorno, atenção aos detalhes e às escolhas. Frankeinstein  nasceu como um texto de terror, escrito em 1818 por Mary Shelley, quando tinha apenas 19 anos. Com o tempo revelou-se muito mais que isso: uma profunda reflexão sobre criação e o que nos torna humanos. Victor Frankenstein é o médico e cientista que cria a Criatura, mas a história acaba deslocando o olhar para quem foi criado, não para quem criou. A primeira palavra que ele fala é "Victor": não nasce revolta, nasce vínculo. E no amor de Elizabeth vemos que é possível escolher enxergar além das aparências. É no final que o filme encontra sua força maior. Quando o comandante manda o navio recuar e decide desobedecer às ordens da Coroa para salvar seus homens, revela-se ali uma ...

Você sabe o que é parlenda?

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De boca em boca Um amigo, que também me acompanha por aqui, me perguntou se eu sabia o que era parlenda. Respondi que não. Ele contou que tinha perguntado para várias pessoas e ninguém soube responder. Então me pediu um texto. Fui direto perguntar para a musicoterapeuta da minha filha, que trabalha a concentração por meio da música. Ela respondeu na hora. Acertou. A curiosidade virou vontade de compartilhar com vocês. Parlenda  é a palavra dita, não cantada. Tem ritmo, mas é fala. Cantiga   é a palavra cantada. Mesmo sem música, a gente canta. No vídeo, eu recito uma parlenda e canto uma cantiga, só com a voz. Sem explicação. Como sempre foi: de boca em boca.

Fluxos - O Japão e a água

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Fui em um único dia à Japan House São Paulo e percorri as exposições em cartaz. Fluxos — o Japão e a água  propõem um olhar atento sobre a relação do Japão com a água — não apenas como recurso natural, mas como parte da vida e da cultura. Esta exposição mostra como a água é importante no cotidiano japonês: nos rituais de purificação, no cultivo do arroz, na vida coletiva e também nas soluções criadas para lidar com a chuva e as enchentes. O Japan House São Paulo é um espaço dedicado à cultura japonesa. O prédio é moderno e acessível, com uma fachada em madeira que chama a atenção. Além das exposições, há restaurante, café, jardim, livraria e loja — espaços que complementam a experiência.   Saí com a sensação de que a exposição fala de técnica, sim, mas também de cuidado — com a natureza, com o espaço que ocupamos e com o futuro. "Seja água, meu amigo."  Bruce Lee  Fluxos — o Japão e a água Japan House São Paulo, SP Até 5 de abril de 2026 Entrada gratuita  ...

Chegou Portugal. Chegou Saramago.

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A escolha de Portugal nessa sequência de leituras curtinhas era algo que eu esperava havia algum tempo. Queria muito ler Saramago. Comecei por O Conto da Ilha Desconhecida (1997). É um livro leve, gostoso de ler, quase uma fábula. O texto é simples, direto e acolhedor. Fala de desejo, coragem e sentido com delicadeza. A leitura flui fácil e deixa uma sensação boa. Depois veio As Intermitências da Morte (2005). Já é outra experiência. O livro é maior e a leitura exige mais atenção. As falas se misturam, às vezes não sabemos quem está falando, e é preciso voltar, reler, ter paciência. No começo, a falta de pontuação confunde, mas logo a gente entende que esse é o jeito do Saramago escrever. Curiosamente, o tema não me incomodou. Mesmo falando de morte, o livro é irônico em muitos momentos e até engraçado. O desafio está mais em como se escreve do que na história em si. Esses dois livros foram escritos depois de Ensaio sobre a Cegueira (1995), o livro mais conhecido do autor, e também a...