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Sonhos de Trem: fui pela fotografia, fiquei pela história

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Sonhos de Trem é daqueles filmes que a gente assiste com atenção redobrada. Talvez porque tenha cinco indicações ao Oscar, talvez porque uma delas seja assinada por um brasileiro, ou talvez — em especial — porque a fotografia do filme é realmente um espetáculo.  As imagens chamam a atenção desde o início. O trabalho do diretor de fotografia se destaca pela sensibilidade com a luz, pelos enquadramentos precisos e pela forma cuidadosa como a paisagem é filmada. Os amanheceres, as florestas, os rios e os campos soltam aos olhos. São verdadeiras pinturas em movimento, que prendem o olhar e emocionam. O enredo também me deixou apaixonada. Aos poucos, o filme revela uma narrativa sensível e profunda. É uma vida simples, contada sem pressa, marcada pelo trabalho, pelas perdas, pela solidão e pelo silêncio. O personagem atravessa o tempo com uma resiliência discreta, sem grandes gestos, seguindo em frente, adaptando-se ao que a vida impõe. É no final desse percurso que ele passa a compreen...

O Alieniata X A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água

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"A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz." — Machado de Assis Fiquei muito feliz comigo mesma por  ter tido a ideia de escolher livros curtos e ir passando pela literatura russa, francesa e agora a brasileira. Esta sendo uma leitura deliciosa. Cada autor, cada país, um jeito diferente de olhar a vida — e isso deixa tudo mais interessante. A literatura brasileira, em especial, me animou muito. Fazia tempo que eu não lia Machado de Assis e Jorge Amado. Na escola, a gente lê quase por obrigação, sem envolvimento. Agora foi diferente. Ler com mais idade, com tempo e vontade, muda completamente a experiência. Os dois livros que li foram O Alienista (1882) e A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água (1959). São novelas que prendem a leitura. A gente lê com prazer, curiosa para saber onde a história vai dar. Há ironia, momentos engraçados e, principalmente, muito Brasil. Em Machado, aparece um olhar mais crítico e irônico sobre o comporta...

Lima: sabores, histórias e uma descoberta pessoal

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Cada dia, um sabor. Pisco sour, ceviche, lomo saltado e pan con chicharron... sabores peruanos que marcaram minha passagem por  Lima e ficaram guardados na memória. Lima é uma cidade vibrante, cheia de histórias, museus, praças e jardins — como o  Jardim do amor, com vista para o Pacífico. Fiquei hospedada perto do Larcomar, um shopping construído sobre a falésia. A partir dali, explorei a cidade usando os ônibus turísticos, sempre com guia,   passando pelos principais pontos e permitindo conhecer Lima com tranquilidade e no meu ritmo.   O Centro Histórico  chama a atenção pela Plaza Mayor, o Palácio do Governo, as igrejas e os casarões coloniais, que ajudam a compreender a cidade desde 1535, quando foi fundada por Francisco Pizarro.   O que mais gostei em Lima foi perceber  como a história e a cultura estão presentes na cidade. Tanto nos museus quanto em espaços abertos, onde a arte aparece integrada ao cotidiano. Durante o dia, explorei Barranco, c...

Estrangeiro X A Queda

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Depois de ler dois livros curtinhos da literatura ru ssa, continuei a leitura com mais dois livros pequenos, agora de um autor francês: Albert   Camus . O Estrangeiro, de 1942 , e A Queda, de 1956.   Apesar de serem livros curtos, não são leituras fáceis. Camus escreve de forma filosófica, o que exige atenção. É o tipo de leitura que pede calma e reflexão. Em O Estrangeiro, o que mais me chamou a atenção foi a ausência de consciência moral do personagem. Ele vai vivendo, deixando as coisas acontecerem, sem questionar, sem reagir, sem se envolver. Parece que tanto faz o que acontece com ele ou o que ele faz. Essa postura cria a sensação de uma vida sem significado, quase vazia.  Ele não age por maldade, mas por indiferença — e isso incomoda profundamente. Já em A Queda, acontece o oposto. O personagem pensa demais sobre si mesmo. Ele começa a perceber que muitas de suas atitudes não vinham do desejo verdadeiro de fazer o bem, mas da vontade de se mostrar uma pessoa cor...

Sozinha, mas muito bem acompanhada

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Almoçar comigo mesma virou um dos meus pequenos prazeres . Sempre escolho uma mesa aconchegante, de preferência com um sofazinho. E, quer saber? Eu adoro. É a minha pausa do dia, o meu encontro com a culinária francesa. Geralmente começo o almoço com um Virgin Mary, esse suco de tomate com nome elegante e tempero perfeito, que abre o apetite com delicadeza.  Às vezes, antes mesmo das entradas, me permito um Pisco Sour . Que delícia! Só que o sono depois do almoço... ah, esse vem implacável. Para driblar essa anestesia emocional, pedi menos açúcar e, de quebra, umas azeitonas antes de começar. Resultado: bebida sob controle e uma tarde tranquila — até demais. Cada visita ao Ici Bistrô, aquele cantinho charmoso da Rua Mato Grosso, bem em frente ao Cemitério da Consolação, é uma descoberta. M e aventuro por entradas clássicas como escargots à la Bourguignonne (sim, caracóis — e deliciosos!), os irresistíveis mexilhões à la crème ou as delicadas jambonnettes de grenouille (as famos...

Noites Brancas X A Morte de Ivan llitch

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Entre a vida suspensa e a vida automática Nestas férias, decidi ler literatura russa por meio de leituras curtas. Queria livros pequenos, que não tomassem muito tempo e permitissem uma leitura tranquila — daquelas que a gente começa e, em dois ou três dias, já termina. Gosto desse tipo de leitura porque ela acalma: você lê, entende e não fica presa por semanas à mesma história. Foi assim que li, um na sequência do outro, Noites Brancas e A Morte de Ivan llitch . São textos curtos e diferentes entre si, mas que acabam conversando quando lidos dessa forma. Em Noites Brancas, vemos uma vida quase suspensa. O personagem observa muito, imagina muito, mas age pouco. A alegria aparece como um momento bonito, quase um sonho — e logo passa. Já em A Morte de Ivan Llitch, o incômodo vem do contrário: uma vida vivida no automático, seguindo regras e expectativas, sem atenção ao que realmente está sendo vivido. Apesar das diferenças, os dois livros tocam no mesmo ponto: a dificuldade de estar pres...

Descobri o que é um oráculo

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Eu nunca soube exatamente o que era um oráculo. Sempre achei que tivesse a ver com cartas, baralho, tarô, previsão. Muita gente pensa assim — eu também pensava . Fui entendendo aos poucos, quase sem perceber. Num clube de leitura, li O grito da onça. Poucos dias depois, encontrei a autora por acaso, num hospital. Logo em seguida, uma mediadora conhecida me enviou uma aula chamada oráculo da onça — e a onça apareceu de novo. Não vi isso como algo místico. Vi como um convite para prestar atenção. Pesquisando, descobri que nos oráculos antigos, como o Oráculo de Delfos , não havia cartas nem previsão. As respostas vinham em frases curtas e simbólicas. A mais famosa delas dizia apenas: " Conhece-te a ti mesmo." O objetivo não era adivinhar o futuro, mas refletir. A aula falava sobre parar, respirar e olhar para o momento presente. Isso fez muito sentido para mim. O oráculo, pelo que entendi, não serve para dar respostas. Ele serve para pensar. Para refletir sobre a vida a pa...