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Frankenstein

Escolhi assistir a Frankenstein numa sexta feira à noite esperando um filme mais forte, mais provocativo. Mas encontrei algo diferente. Em vez de choque, encontrei amor, delicadeza e escuta. Não acho que seja um filme para assistir uma única vez. Sinto que preciso revê-lo para aproveitar melhor tantos detalhes, tantas situações, tantos sentimentos, tantas lições. Ao longo do filme, fui percebendo gestos de generosidade e cuidado. A Criatura ajuda, protege, permanece. Mesmo nas situações difíceis, o que se destaca não é a maldade, mas o aprendizado a fazer o bem. Frankentein nasceu com um texto de terror, escrito em 1818 por Mary Shelley, quando tinha apenas 19 anos. Anos depois, ao revisar o livro, ela já tinha perdido três filhos. Quando a história chegou ao cinema, acabou ficando muito associada à Criatura, ao monstro. Foi mais tarde, com o tempo e as releituras, que Frankenstein passou a ser reconhecido como um marco da literatura de ficção. Victor Frankenstein é um médico e cie...

Fluxos - O Japão e a água

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Fui em um único dia à Japan House São Paulo e percorri as exposições em cartaz. Fluxos — o Japão e a água  propõem um olhar atento sobre a relação do Japão com a água — não apenas como recurso natural, mas como parte da vida e da cultura. Esta exposição mostra como a água é importante no cotidiano japonês: nos rituais de purificação, no cultivo do arroz, na vida coletiva e também nas soluções criadas para lidar com a chuva e as enchentes. O Japan House São Paulo é um espaço dedicado à cultura japonesa. O prédio é moderno e acessível, com uma fachada em madeira que chama a atenção. Além das exposições, há restaurante, café, jardim, livraria e loja — espaços que complementam a experiência.   Saí com a sensação de que a exposição fala de técnica, sim, mas também de cuidado — com a natureza, com o espaço que ocupamos e com o futuro. "Seja água, meu amigo."  Bruce Lee  Fluxos — o Japão e a água Japan House São Paulo, SP Até 5 de abril de 2026 Entrada gratuita  ...

Chegou Portugal. Chegou Saramago.

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A escolha de Portugal nessa sequência de leituras curtinhas era algo que eu esperava havia algum tempo. Queria muito ler Saramago. Comecei por O Conto da Ilha Desconhecida (1997). É um livro leve, gostoso de ler, quase uma fábula. O texto é simples, direto e acolhedor. Fala de desejo, coragem e sentido com delicadeza. A leitura flui fácil e deixa uma sensação boa. Depois veio As Intermitências da Morte (2005). Já é outra experiência. O livro é maior e a leitura exige mais atenção. As falas se misturam, às vezes não sabemos quem está falando, e é preciso voltar, reler, ter paciência. No começo, a falta de pontuação confunde, mas logo a gente entende que esse é o jeito do Saramago escrever. Curiosamente, o tema não me incomodou. Mesmo falando de morte, o livro é irônico em muitos momentos e até engraçado. O desafio está mais em como se escreve do que na história em si. Esses dois livros foram escritos depois de Ensaio sobre a Cegueira (1995), o livro mais conhecido do autor, e também a...

Renoir

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A primeira vez que minha netinha veio ao MASP com a escola, ela ficou encantada com As Meninas. Desde então, toda vez que volto ao museu, eu passo por essa obra. Não consigo não tirar uma foto. São 13 trabalhos do acervo, reunidos depois de mais de 20 anos. Essa exposição fez parte da inauguração do Edifício Pietro Maria Bardi, novo prédio do Masp. Conhecido como o pintor da alegria, Pierre-Auguste Renoir retratou cenas de afeto, encontros, dança, família e prazer de viver. Teve um fascínio pelo corpo feminino, pintando mulheres com formas suaves e luminosas. Mesmo com artrite severa, trabalhou quase até morrer e terminou a vida reconhecido como um grande mestre. Pintura, retrato, corpo, escultura — Renoir passou por todas essas fases. As meninas — Alice e Elisabeth Cahen d'Anvers, 1881. "A arte é sobre emoção; se a arte precisa ser explicada, deixa de ser arte." — Pierre-Auguste Renoir

"Na França"

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Agnes recebe um telefonema dizendo que sua tia morreu, uma ligação oficial feita por um policial do interior da França. Na carteira da tia, estava escrito: " Em caso de morte, avisar a Sra. Agnes."  Havia também um pedido claro: quer ser cremada. Até aí, tudo bem. Acontece. Só que tem um detalhe impossível de ignorar: essa tia já tinha morrido três anos antes. Pelo menos era isso que Agnes sempre acreditou. A notícia não faz sentido. Incomoda. Não encaixa. E é assim, meio atordoada, que ela deixa a vida que está levando agora e vai até a cidade natal da família, na Borgonha, na França, para tentar entender como alguém pode morrer duas vezes — e o que está por trás dessa história mal explicada. Epa, epa, epa! Acho que o bom senso manda parar por aqui. N ão vou contar mais nada. Não vou explicar o mistério. Não vou entrar nos segredos de família. Não vou falar de quem esteve sempre ali, mas nunca foi enxergada. Querida Tia, de Valérie Perrin, é um romance contemporâneo, famil...

Mestres da Carpintaria Japonesa

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Penso em ir ao Japão, mas o tempo de voo ainda me traz ansiedade. Por isso, achei uma boa ideia me aproximar da cultura japonesa pelo que São Paulo tem a oferecer. Foi nesse espírito que visitei a Japan House. Fui olhando mais para os encaixes do que para os pregos; mais para o trabalho do mestre do que para o resultado final. A  exposição mostrava arquitetura, design e tecnologia, mas o que mais me chamou a atenção foi a delicadeza: das obras, do espaço, da forma como tudo se apresenta. O Japão tem grande parte de seu território coberto por florestas, e a relação com a madeira é profunda. O carpinteiro japonês observa a árvore, seu crescimento e seu lugar na natureza para escolher a madeira certa para cada uso. Esse cuidado, que envolve respeito e responsabilidade, deu origem a técnicas baseadas em encaixes precisos, pensadas para durar. Tudo ali é calmo. A luz é baixa. O percurso é claro. As pessoas falam pouco. O silêncio parece fazer parte da experiência. Sem perceber, a gente ...

Na livraria: Na voz dela, de Alba de Céspedes

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Foi um dos clubes de leitura com opiniões mais divergentes que já participei: houve quem amou (como eu), quem achou apenas razoável, quem sentiu repetição, quem demorou muito para ler e até quem não conseguiu terminar. As leituras foram muito diferentes, inclusive em relação ao contexto do livro. Minha impressão, sem dar spoiler, é que se trata de um romance de ficção em que os personagens estão acima da normalidade — e isso, para mim, torna a leitura interessante. Situações pouco comuns, que fogem do cotidiano, causam impacto e prendem a atenção. Outro ponto positivo é a estrutura. É um livro linear: começa na infância da protagonista e acompanha sua trajetória até o final, sem grandes quebras ou idas e vindas.  Para uma das participantes, o que mais tocou foi o contexto da guerra na Itália e as mudanças no cotidiano da população — algo que ela reconheceu nos relatos que ouvia da própria mãe. Para mim, a leitura seguiu por outro caminho. Fiquei mais direcionada ao universo feminin...